Mobilidade traz alternativas frente à crise dos combustíveis

Transporte coletivo sustentável diminui emissões e reduz exposição a fragilidades logísticas

Os combustíveis fósseis apresentam desafios cada vez maiores às cidades. Além de contribuírem para a emissão de gases, eles são sujeitos à fragilidade de abastecimento, prejudicando todos os centros urbanos. Algumas alternativas de transporte coletivo, como o VLT e o metrô, são maneiras de enfrentar essas crises com conforto e sustentabilidade.

Diversos países estão tomando medidas concretas para diminuir o consumo de combustíveis fósseis nos sistemas de transportes. Na Alemanha, há um projeto em andamento que visa proibir veículos movidos a combustão interna no país. A medida, que ainda não virou lei, prevê a adoção exclusiva de motores elétricos até 2030. Já o Reino Unido pretende tirar todos os carros a gasolina e diesel das ruas e rodovias até 2050.

Além da redução da emissão de gases, a medida também diminui a exposição às limitações logísticas dos combustíveis fósseis. A recente greve dos caminhoneiros foi um exemplo disso, em que o fornecimento de combustíveis no país foi praticamente paralisado, trazendo prejuízos à circulação tanto de automóveis quanto de ônibus e outros modais.

O Brasil tem algumas iniciativas no sentido de reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, mas ainda não está no mesmo estágio de outros países, nem está executando projetos na mesma velocidade, segundo a gerente de Mobilidade Urbana da ONG WRI, Cristina Albuquerque.

"Algumas cidades no Brasil estão com alguns veículos elétricos, mas são poucas, e vemos mais projetos focados no desenvolvimento no transporte coletivo. Isso é uma boa iniciativa, já que podemos aplicar essa infraestrutura para outros veículos elétricos e, depois, para os veículos particulares", diz a especialista.

Racionalidade e sustentabilidade
Teresina busca esse modelo, conciliando a racionalização do transporte coletivo com a redução da dependência dos combustíveis. Para isso, a capital do Piauí adotou um sistema de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) que conta hoje com nove estações, transportando cerca de 10 mil usuários por dia, em um trajeto que liga a zona Sudeste ao centro da cidade.

O sistema deve contar com três veículos em pleno funcionamento até o fim de 2018. Na segunda etapa do projeto, devem ser adquiridos mais três VLTs, além da duplicação da linha férrea, da reforma de cinco estações e da construção de outras duas. Ao fim dessa fase, essa rede será capaz de transportar até 40 mil passageiros por dia.

"Com o crescimento da frota de veículos em nossa cidade, que ganha 2 mil novos carros por mês, é cada vez mais necessária a implantação de um sistema que faça as pessoas utilizarem o transporte público, ajudando a desafogar o trânsito e melhorando a qualidade de vida da população", diz o secretário dos Transportes do Piauí, Guilhermano Pires.
O Rio de Janeiro também se beneficia da sustentabilidade desse modal. Operando desde 2016, o VLT Carioca conta com duas linhas e 26 paradas, retomando uma tradição antiga da cidade - a dos bondes elétricos -, mas agregando tecnologia e pontualidade ao transporte sobre trilhos. Durante a greve dos caminhoneiros, enquanto outros sistemas sofreram reduções ou interrupções, o VLT operou normalmente, transportando passageiros no centro e na região portuária do Rio.

Para o presidente do VLT Carioca, Marcio Hannas, a confiança e a percepção de valor da população são fatores de sucesso do sistema. "O VLT busca entregar diariamente na operação pontualidade com segurança. A última pesquisa de satisfação, realizada pelo Datafolha, aponta aprovação de 92% do público, o que nos deixa satisfeitos, mas conscientes da responsabilidade de manter e melhorar a qualidade do serviço", afirma.

Migração de passageiros
Em São Paulo, o Metrô funcionou em horário especial durante três dias para atender os passageiros durante a greve dos caminhoneiros, estendendo o fim dos serviços até a 1h.

“Em situações emergenciais, o metrô apresenta-se como alternativa para os usuários de transporte particular. Em alguns casos, pode ser um primeiro contato com o sistema de metrô, contribuindo para a migração de sistemas de transporte individual para o público”, diz Harald Zwetkoff, presidente da ViaQuatro, concessionária que opera a Linha 4-Amarela.

Para ele, o Brasil ainda discute de maneira incipiente a adoção de modelos que não dependem de combustíveis fósseis, como veículos elétricos. “A recente crise provocada pela greve dos caminhoneiros demonstrou a fragilidade da nossa posição”, afirma.

"Tanto o metrô quanto o VLT estão alheios a qualquer quebra na distribuição e fornecimento de combustíveis fósseis. Essa, além de muitas outras, é uma grande vantagem da mobilidade elétrica", diz Marcos Paulo Schlickmann, engenheiro civil especializado em transportes e colaborador do projeto Caos Planejado.

No entanto, ele ainda vê espaço para melhoria nas políticas públicas. "Acho que estamos no caminho das melhorias das condições de circulação, e também para pedestres e ciclistas, mas nossos políticos e população em geral ainda prioriza muito o transporte individual e mais poluente."G1/CCR

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